Era outono e da janela viam crianças que saltitavam entre as folhas do velho Jacarandá. Carlos segurava nas mãos de Clara, que estava em prantos, ele tentava consolar-lhe, mas de nada adiantava, não podia julgá-la ou pedir que parasse, pois aquele momento seria o mais difícil de uma mulher. Carlos olhando para aquela janela começou a lembrar como todo esse episódio iniciou.
Estavam sentados debaixo de um pé de manga quando de repente Clara teve um desmaio repentino, ele desesperado a levou na primeira policlínica em que encontrou, não sabia o que fazer, uma das enfermeiras daquele local o aconselhou que ligasse para família daquela moça. Duas semanas depois, após os resultados dos exames, descobriram a resposta que ninguém jamais pensara ouvir. Clara tinha um câncer, um tumor no cérebro. Mas como? Todos perguntavam. Como uma menina de 19 anos tem uma doença dessas? Ela é tão jovem! Será que ela vai morrer? E a sua faculdade? Carlos estava cansado daquelas perguntas sem respostas, cansado dos mesmos olhos de pena em que as pessoas o dirigiam.
Blasfêmias, e mais blasfêmias, choros, palavras de consolo, mas nada que fizesse reverteria àquela situação, ela estava com câncer, e ninguém poderia mudar isso. Remédios, Náuseas, Crises de torces, Fraquezas, Quimioterapia, ele via todos os dias o mesmo filme, o mesmo pesadelo que nunca acabava.
_Clara, para com isso. – sua mãe chamou atenção. Não vê que assim, você só piora as coisas, é a melhor coisa que você faz.
Carlos havia acordado daquele sonho conturbado.
_Mãe, você não entende eu não consigo, eu nunca imaginei que isso seria mais difícil de tudo o que estou passando
_Clara se você não fizer, ele fará por você._ sua mãe, acabara de olhar para o amor da sua vida.
Carlos estarrecido ficou sem palavras, mas ele sabia que faria tudo o que Clara pedisse, ele nunca diria não. E a única palavra que disse com lágrimas nos olhos. Foi Sim.
Carlos pegou a tesoura olhou para o espelho que refletia a sua amada, passou as mãos em seus ombros finos, pegou em seus cabelos que agora eram poucos e fracos, e começou a cortar. Ele chorava lembrando-se dos momentos felizes que passou com aquela menina, ele gostaria de saber por que Deus estava o testando dessa maneira, o que fizera para ver a pessoa que ele amava sofrer assim. Clara percebendo a tristeza nos olhos do seu amado o olhou pelo reflexo do espelho e disse, com a voz fraca quase inaudível, “eu te amo”.
Eles estariam juntos essa era a única certeza que os dois tinham.

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