Hoje não seria um dia comum, disso Ana sabia, após anos de dedicação e esforços era chegada hora, sua mão trêmula segurava o arco enquanto olhava para aquela multidão que aguardava ansiosamente pelo espetáculo.
Ana pegou seu violino, que havia sido de seu pai, e delicadamente encostou-lhe em seu queixo, o silencio tomou conta de todos ao redor, então, sem mais delongas, as notas começaram a surgir e extasiavam por onde passavam.
Seu coração batia profundamente, mas não era pelo belo arranjo, e sim pelo que representava para ela, a precoce passagem de seus pais em sua vida, a humilhação que passara por muito tempo com sua tia, os abusos, as noites mal dormidas, os choros...
Após o espetáculo, Ana começou seus agradecimentos:
_Este dia marcou minha vida, e agradeço a todos vocês, aos meus pais, que descansem em paz, contudo quero, principalmente, agradecer a minha tia, por todas as noites em que dizia que eu nunca seria ninguém, por isso esforcei-me mais ainda pra estar aqui. Todas as vezes em que queimava as notas musicais que eu compunha, fazia questão de me agarrar a uma leve esperança de que faria outras melhores, e quando falava que eu estava sozinha nesta vida, me entrelaçava ao violino, pois sabia que meus pais, por mais que eu não os visse, estavam comigo o tempo todo.
Tia, eu agradeço-te muito, porque se não fosse por você, eu não me desprenderia com tanta garra para conquistar meus sonhos, pois quando você os destruía com suas palavras, eles se reconstruíam como chama dentro de mim.
E sem mais nenhuma palavra, Ana agradeceu e saiu daquele lugar deixando todo o seu passado, todas as suas dores e seguiu em frente para uma nova vida, a vida que sonhou e merecia ter.

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