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O doce som


Hoje não seria um dia comum, disso Ana sabia, após anos de dedicação e esforços era chegada hora, sua mão trêmula segurava o arco enquanto olhava para aquela multidão que aguardava ansiosamente pelo espetáculo.
 Ana pegou seu violino, que havia sido de seu pai, e delicadamente encostou-lhe em seu queixo, o silencio tomou conta de todos ao redor, então, sem mais delongas, as notas começaram a surgir e extasiavam por onde passavam.
Seu coração batia profundamente, mas não era pelo belo arranjo, e sim pelo que representava para ela, a precoce passagem de seus pais em sua vida, a humilhação que passara por muito tempo com sua tia, os abusos, as noites mal dormidas, os choros...
Após o espetáculo, Ana começou seus agradecimentos:
_Este dia marcou minha vida, e agradeço a todos vocês, aos meus pais, que descansem em paz, contudo quero, principalmente, agradecer a minha tia, por todas as noites em que dizia que eu nunca seria ninguém, por isso esforcei-me mais ainda pra estar aqui. Todas as vezes em que queimava as notas musicais que eu compunha, fazia questão de me agarrar a uma leve esperança de que faria outras melhores, e quando falava que eu estava sozinha nesta vida, me entrelaçava ao violino, pois sabia que meus pais, por mais que eu não os visse, estavam comigo o tempo todo.
Tia, eu agradeço-te muito, porque se não fosse por você, eu não me desprenderia com tanta garra para conquistar meus sonhos, pois quando você os destruía com suas palavras, eles se reconstruíam como chama dentro de mim.
E sem mais nenhuma palavra, Ana agradeceu e saiu daquele lugar deixando todo o seu passado, todas as suas dores e seguiu em frente para uma nova vida, a vida que sonhou e merecia ter.

A vida sob dois pontos

Dois velhos amigos estavam sentados perto de uma lagoa ao entardecer jogando conversa fora como de costume. Melancólico olha para aquela tão bela “visão dos Deuses” e desabafa:

_ Essa brisa bate em minha face e eu olho para esse céu tão extasiante e lembro-me da época que amor surgiu em minha vida. Ahh! Como me lembro de seus doces lábios nos meus com a canção de um magnífico sabiá e meu coração dilacerava por esse amor tão profundo.
_Essa paisagem é um fenômeno da natureza todos os dias da semana entardecem e o sol está sendo refletindo nessa lagoa, essa brisa que você está sentindo em seu rosto diz que se não saímos daqui, tomaremos uma tempestade das brabas, pois o céu está ficando todo nublado.Estou cansado desse seu jeito de levar a vida isso é pura nostalgia.
_ Como pode você olhar para as sombras negras que atrapalham a visão tão inebriante, e o que digo não é nostalgia mais sim a poesia da vida de cada aurora, não vê Prático que a beleza das coisas está nos pequenos detalhes?
_Como você pode olhar para encanto da vida, se vivemos num mundo em que a beleza se extinguiu, e a humanidade se desencaminhou, cada dia mais podemos perceber a desigualdade, a morte batendo em nossa porta e sem falar de milhares de pessoas que nesse instante passam fome. Eu não vivo em conto de ilusões, lembrando de amores fracassados como os Romances que você não cansa de ler. Enxergo a vida com praticidade, sei que se não trabalhar não sustentarei minha Dona Maria que me espera em casa, não sei por que você e tão nostálgico, o que isso traz de bom para sua vida, além de pensamentos fúteis.
Melancólico não disse mais nem uma palavra, pois sabia que seu amigo nunca entenderia seu ponto de vista, então sem olharem novamente para aquele céu que agora estava todo nublado os dois se levantaram, deixando ali um pedaço de cada um de si, a saudades de um amor fracassado e o cansaço de uma existência natural.

Maria, Maria


Maria, oh minha pequenina Maria, sentada em sua cadeira com pensamentos indecifráveis, pálida como uma neve, seu cabelo esvoaçava com as últimas folhas do outono.
Olhos baixos sem vida, palavras mórbidas com agradecimentos mútuos, sua vontade era de sair correndo e nunca mais voltar naquele lugar e lembrar-se desse dia tão tenebroso. De cabeça baixa lembrava-se das brigas corriqueiras, das risadas condescendentes, dos beijos de boa noite ou até mesmo de quando passava pela porta do quarto e via um grito esperançoso pela luta de um gol. Agora olhava pro lado e via aquele homem que um dia foi a inspiração de suas lutas imagináveis, seu herói, seu companheiro na infância que até mesmo quando as bonecas perderam-se a vida ele não deixou de amá-la.
Maria sabia que a partir daquele momento ela havia perdido o único homem que a amou incondicionalmente que daria sua vida pela dela, ela sabia que daquele momento em diante teria que dar seus próprios passos ao lado de sua mãe, tentando curar essa cicatriz aberta em sua alma, e lembrar que onde ele estivesse, seria sempre seu herói, seria SEU PAI INCODICIONAL.
        

 
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